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A (INADEQUADA) ESCOLARIZAÇÃO DA LITERATURA E A FORMAÇÃO DE (NÃO) LEITORES: uma reflexão inicial

Você sabe que a literatura é importante na formação das crianças, mas não consegue motivá-las ou dar sequência a um projeto de literatura?



No dia a dia escolar, colocar em prática um projeto de literatura é sempre um desafio, pois para desenvolvê-lo é importante que o próprio professor seja um leitor em condições de encantar as crianças no processo de leitura.


Resgatando a história, a literatura sempre foi vista como um privilégio para poucos. Com os avanços editoriais, a literatura se propagou e hoje é vista como um fator indispensável de humanização, pois tira as palavras do nada e as dispõe como um todo articulado.


Neste todo, a palavra comunica-se ao nosso espírito e o leva, primeiro, a se organizar; em seguida, a organizar o mundo. (CÂNDIDO, 2011)

Tendo a literatura o poder de ajudar a compreender a si mesmo e ao mundo, podemos pensar na formação de um leitor sensível e envolvido, capaz de ousar ler a partir de si, a reagir e a refletir sobre os efeitos da obra sobre ele mesmo.


Neste caso, trata-se de considerar as relações que o leitor faz da leitura com suas próprias experiências, pois é ele quem reconfigura o texto à sua imagem, introduzindo suas próprias imagens mentais. (ROUXEL, 2014).

Se temos a literatura como direito humano que humaniza o leitor, precisamos desenvolver a competência deste leitor para reagir ao texto, para estar atento às repercussões que a obra suscita nele mesmo e a exprimi-los.



Em se tratando de literatura infantojuvenil, podemos observar que hoje ela tem uma identidade e vem se fortalecendo progressivamente com a formação de novos leitores. No entanto, é importante refletirmos sobre a inadequada escolarização da literatura nos espaços escolares, sem formar, necessariamente, um leitor competente.


Pois bem, sempre se atribuiu à literatura infantojuvenil um caráter educativo, vinculado à escola. Com o crescimento da oferta de educação escolar, houve também um crescimento da literatura infantojuvenil no país. Fácil observar essa relação quando vemos em todos os livros infantojuvenis a presença de uma ficha de leitura. No entanto, a educadora Magda Soares, professora titular emérita da Faculdade de Educação da UFMG, chama a atenção para a inadequada escolarização da literatura nas escolas. Isso acontece a partir de textos fragmentados, destaque somente para aspectos formais dos gêneros, uso dos gêneros como pretexto para questões gramaticais, recorrência dos mesmos autores ou uso limitado de autores, finalidade instrutiva dos textos, exercícios superficiais de compreensão, que não desenvolvem competências leitoras.


É fundamental considerarmos que há na literatura infantojuvenil uma relação autor e leitor mesmo antes da criança estar alfabetizada. Isso se dá por meio de funções semióticas, performances visuais e sensoriais capazes de formar vazios na obra que recebem significados a partir da própria criança. Assim, formar leitores, e bons leitores na escola, começa na Educação Infantil.


Nesse processo de formação do leitor há de se considerar também o próprio professor, pois ele desempenha um papel importante na mediação da leitura.

Imagens e textos constituem-se como linguagens e precisam ser lidos conjuntamente pelas crianças. O ilustrador, assim como o autor, também narra uma história e por meio das imagens oferece pistas que o escritor deixa em aberto no texto para a interpretação do leitor, que será feita com base em suas experiências. Você consegue perceber isso ao selecionar um livro para as crianças ou quando está lendo com elas?


Saber ler e saber escolher livros de literatura para as crianças é de suma importância para um processo de mediação e formação de leitores, mas também precisa estar presente na formação dos educadores, desconstruindo a função utilitarista ou moralista da literatura na infância.

Bons livros podem narrar uma história escrita que se complementa pelas ilustrações. Bons livros apresentam personagens verdadeiros para as crianças, com todo tipo de sentimento humano.


Bons livros não subestimam as crianças, mas as provocam, oportunizam boas perguntas e reflexões.

Por isso, um projeto de literatura considera um planejamento intencional, organizado de tal forma a desencadear essa interação texto e leitor. As obras lidas fazem parte de uma intencionalidade lúdica capaz de desafiar os leitores. Como colocar em prática propostas efetivas com a literatura?

Acompanhe no próximo texto!



Danielle Mari Stapassoli

Pedagoga, mestranda em educação

e assessora pedagógica,

especialista em “Currículo e Prática Educativa” e

“Organização do Trabalho Pedagógico”.





Referências:

CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 5 ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2011.


ROUXEL, Annie. Ensino da literatura: experiência estética e formação do leitor (sobre a importância da experiência estética na formação do leitor). In: ALVES, José Hélder Pinheiro (org.). Memórias da Borborema 4. Discutindo a literatura e seu ensino. Campina Grande: Abralic, 2014.


SOARES, Magda. A escolarização da literatura infantil e juvenil. In: EVANGELISTA, Aracy et al. A

escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil e juvenil. BH: Autêntica, 1999.

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